Filtrado saindo turvo (passando sólidos): o que checar antes de trocar o tecido
O fenômeno também é chamado de carry-over ou passagem de finos.
Resumo rápido: filtrado turvo é sólido indo embora pelo lado errado — perda de produto no licor e retrabalho a jusante. As causas ordenáveis vão de permeabilidade grande demais para a granulometria real a vazamento por costura, vedação de placas e rasgo incipiente.
Primeiro: o turvo é contínuo ou só no início do ciclo?
Essa única observação já corta o diagnóstico ao meio:
- Turvo nos primeiros minutos, limpando depois que a torta forma → comportamento normal ou abertura no limite: a pré-camada (a própria torta) é quem filtra fino. Se o volume inicial incomoda, recircule o filtrado do início do ciclo ou ajuste a especificação — mas não é dano.
- Turvo contínuo, do início ao fim → sólido passando por onde não devia: abertura errada para a granulometria real, furo, rasgo ou vedação. Aí é diagnóstico das causas abaixo.
As cinco causas prováveis
1. Abertura/permeabilidade grande demais para a granulometria real
Se a polpa ficou mais fina que a de projeto (moagem, frente de lavra, reprocessamento), o tecido que era certo passou a deixar finos atravessarem. Assinatura: turvo contínuo e uniforme em todas as placas/setores, pior quando a alimentação afina.
2. Vazamento por furos de costura
Costura convencional fura o tecido, e cada furo de agulha é um canal direto de finos para o filtrado. Assinatura: turvo persistente mesmo com tecido “fechado”, às vezes rastreável a elementos específicos. Solução de confecção: solda ultrassônica, sem furo de agulha.
3. Vedação e alinhamento de placas ou setores
Placas fora de esquadro, vedação gasta, setores de disco mal assentados: a polpa contorna o tecido em vez de atravessá-lo. Assinatura: turvo localizado (uma placa, um setor), muitas vezes com gotejamento ou trilha visível.
4. Rasgo incipiente
Um rasgo começando — na costura, numa dobra, numa zona de abrasão — passa sólido antes de ser visível a olho. Assinatura: turvo que aparece de repente no meio da campanha e piora rápido. Ver o guia dedicado: Meu tecido está durando pouco (rasga/fura cedo).
5. Primeiros minutos sem pré-camada formada
Como acima: o começo do ciclo filtra pior por natureza. Vira problema quando o tempo de formação está longo demais — o que remete à especificação (abertura × granulometria) e às condições do ciclo.
Como diagnosticar
- Observe o filtrado ao longo do ciclo: limpa depois da torta formada = abertura/pré-camada; contínuo = dano ou vedação; súbito no meio da campanha = rasgo.
- Localize: turvo geral aponta especificação; turvo de uma placa/setor aponta dano ou vedação naquele elemento.
- Meça os finos passantes no laboratório: o ensaio quantifica quanto sólido atravessa cada candidato de tecido com a sua polpa — transforma “está turvo” em número comparável.
- Inspecione costuras e bordas dos elementos suspeitos: furo de agulha e início de rasgo se concentram aí.
O que fazer
- Reespecificar a retenção sem matar o ciclo. Fechar o tecido indiscriminadamente derruba vazão e alonga o ciclo — o equilíbrio retenção × permeabilidade para a granulometria real é um trade-off que se mede em ensaio, não se chuta.
- Solda ultrassônica na confecção — elimina o vazamento por furo de agulha na origem.
- Checar a geometria — vedação, alinhamento e assentamento dos elementos: tecido perfeito não compensa polpa passando por fora dele.
Evidência de ensaio: retenção e ciclo não são inimigos
O diagnóstico apressado (“o tecido está aberto demais”) costuma trocar a especificação errada. O dado que derruba o falso dilema: em ensaio Remae, retenção e desaguamento melhoraram juntos — filtrado mais límpido com torta mais seca, trocando só o tecido. Números sob condições declaradas; referência técnica, não garantia de processo.
O medo clássico de fechar o tecido é perder vazão. O acervo Remae (577 ensaios, 2004–2026) mostra que, especificado pela polpa real, o tecido certo entrega os dois:
| Material | Ensaio (filtro simulado) | Resultado com o tecido reespecificado |
|---|---|---|
| Concentrado fino apatítico (fosfato) | Leaf Test (vácuo) | Maior retenção de sólidos e filtrado mais límpido — e umidade de torta 19,6% → 15,1% (−4,5 p.p., tecido 4233-TC) no mesmo ensaio |
E o contraexemplo qualitativo, na mesma polpa e mesma etapa: um tecido inadequado (4303-TC) entregou torta grudada e filtrado turvo, enquanto o 4371-T formou e soltou a torta com filtrado limpo. Retenção, desaguamento e liberação andam juntos quando a especificação parte da polpa real.
Resultados de bancada sob condições declaradas; o comportamento em campo depende da granulometria, da química e do equipamento. Seu material não está na tabela? É para isso que existe o ensaio — o laboratório mede os finos passantes com a sua amostra antes de qualquer troca.
Como a Remae mede
A Remae mantém laboratório próprio de testes e reproduz o seu caso no ensaio correspondente ao seu equipamento (Tubo de Pressão para filtro prensa; Leaf Test e Buchner para vácuo). Entre as variáveis medidas: finos passantes no filtrado, umidade de torta, vazão/tempo de ciclo e liberação — comparando o tecido em uso com candidatos. Desde 1956, com +3 mil clientes e +300 construções de tecido, o equilíbrio retenção × ciclo sai medido, não estimado.
Onde o filtrado turvo mais dói (dois casos setoriais)
- Química (centrífugas): cristal passando para o licor-mãe é produto perdido. A causa clássica é a abertura da tela/bolsa maior que a fração fina da distribuição de tamanho de cristais (DTC) — a especificação certa casa a abertura com a DTC real, não com a média.
- Efluentes (ETE): o filtrado do desaguamento volta para o processo ou vai a lançamento — e aí a régua é legal: sólidos em excesso (SST) comprometem o atendimento ao padrão de lançamento (CONAMA 430). Tecido com captura adequada mantém o filtrado dentro da conformidade, não só limpo aos olhos.
Perguntas frequentes
Filtrado turvo é sempre culpa do tecido? Não. Vedação, alinhamento, furo de costura e rasgo passam sólido com o tecido “certo” instalado. Por isso o diagnóstico começa observando quando (início × contínuo × súbito) e onde (geral × localizado) o turvo aparece.
Se eu fechar o tecido, não perco vazão? Fechar às cegas, sim. O ponto de equilíbrio retenção × permeabilidade para a sua granulometria se mede em bancada — no caso da apatita, o tecido reespecificado aumentou a retenção e ainda reduziu a umidade da torta.
O filtrado sai turvo só nos primeiros minutos. Preciso trocar o tecido? Provavelmente não: antes da pré-camada formar, todo meio filtra pior. Recircular o filtrado inicial resolve o volume que incomoda. Turvo contínuo é outra história — aí vale o diagnóstico completo.
Quanto produto estou perdendo no licor? É exatamente o que o ensaio de finos passantes quantifica — por tecido candidato, com a sua polpa. Com o número na mão, a conta de quanto vale a reespecificação se faz sozinha.
Turvo de repente, no meio da campanha: o que é? Assinatura de dano — rasgo incipiente ou vedação que cedeu. Localize o elemento (o turvo costuma ser rastreável) e inspecione costura e bordas antes que o rasgo cresça.
Traga sua polpa — o ensaio é feito no laboratório Remae. Envie uma amostra com os dados de processo (material, granulometria/teor de finos, pH, temperatura e tipo de filtro) e a Remae devolve o comparativo com finos passantes, umidade e ciclo medidos no seu material. → /contato/